xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Capítulo 4: Pesadelos Após o incidente relacionado à morte de seis, dos mais importantes homens que agiam em favor da máfia, Mu tornou-se muito mais distante e preocupado com o destino de Shaka. Porém, o esquivo assassino loiro estava sempre à procura de se fechar e se afastar dos cuidados do amigo. Aioria já não poderia tirar da cabeça de seu anjo que o indiano estava enlouquecendo aos poucos com a vida que levava. O leonino via que ele mergulhava cada vez mais fundo em seu interior, tentando criar muros para se proteger da aparente realidade que assombrava. Até mesmo Aioros começava a se preocupar com o tipo de atitude que Shaka havia adquirido. Não parecia mais o mesmo homem simpático e prestativo que sempre fora, agora o indiano era... Pantera, o segundo no comando. Isso não fazia bem à cabecinha perturbada do jovem. Apesar da preocupação geral, Ikki vivia em um mundo de fantasias, onde, todas as noites, dividia a cama com um dos mais perigosos homens que Athenas já conheceu. Do outro lado, Afrodite estava encontrando uma certa dificuldade em perseguir Red Tiger. Aparentemente o assassino se tornara caseiro e nem Shura conseguia rastreá-lo, o que dificultava, e muito, o trabalho dos dois. Aos poucos a dúvida sobre onde, possivelmente, Red Tiger se encontrava e o que estaria fazendo, se tornava um irritante mistério. O que, aliás, tornou as coisas ainda mais tensas. Foi essa inquietude que obrigou Mu a realizar uma reunião particular com os homens de sua confiança. Naquela sala de paredes negras, o chá já se encontrava servido em uma mesa longa de mesma cor. Cinco homens esperavam ansiosamente que seu líder entrasse pela porta dupla de madeira escura. Todos, sem exceção, estavam nervosos. Os sempre faladeiros, Afrodite e Aioria se encontravam calados. Shura, sempre tão quieto, estava um pouco inspirado em contar histórias. Aioros torcia as mãos, apenas fingindo acompanhar o que o espanhol lhe dizia, enquanto que Shiryu mantinha um olhar distante e incomum. Apesar da tensão que os mantinham ocupados, sabiam da falta de uma importante pessoa no recinto... Shaka. − Boa noite. – a voz melodiosa de Mu encheu o ambiente, tornando o ar mais fácil de se respirar. – Boa noite. – os outros cinco responderam em uníssono. A noite estava mais fresca, porém o Anjo Negro não dispensara seu costumeiro kimono branco de seda. O cabelo cor de lavanda estava divinamente preso em uma longa trança com fios dourados. Assim que entrou ele sorriu discretamente e sentou-se na cabeceira da longa mesa. – Aioria... – ele sussurrou para o amante, que estava à sua esquerda. – Onde eles estão? Mu se referia aos lugares vazios à sua direita, os quais deveriam estar preenchidos por Shaka e Ikki. Ao lado de Aioria se encontrava Shiryu e logo depois Aioros, e na frente destes dois Afrodite e Shura. O grego tocou a mão pálida do ariano e trouxe aos lábios para beijá-la, sempre delicadamente. – Não chegaram ainda, mas não se preocupe, devem estar a caminho. A resposta nem sequer chegou a tirar um sorriso educado dos lábios de Mu, ao contrário, ele franziu o cenho em uma expressão de desgosto e contrariedade. – Mu, eu sugiro que comecemos logo a reunião, discutindo exatamente o problema dele. – Desculpe, Aioros, mas eu creio que não há o que ser discutido. Shaka tem idade suficiente para cuidar do próprio nariz... Infelizmente eu não posso fazer mais nada por ele. – nesse instante, quando todos abaixaram as cabeças, talvez por respeito ou educação, o loiro em questão entrou pela porta de madeira, acompanhado de seu fiel escudeiro: Ikki. – Desculpe-me pelo atraso Mu. – o indiano sorriu, sentou-se em seu lugar de direito e ao seu lado, Ikki. Como sempre, todos os olhares se dirigiram ao loiro de kimono negro... E como sempre, eram olhares de desaprovação e dessa vez... Também de pena. – O que foi? Por que me olham assim? – Onde estava, Shaka? – o indiano encarou Aioria como se aquela pergunta fosse absurda e ultrajante, mas se dignou a responder: – No meu quarto, por quê? – Não é hora disso. Você sabia do horário, não deveria ter se atrasado. Além do mais, Shaka, diante do perigo que você, mais do que qualquer um aqui, está enfrentando, não deveria estar se ‘atrasando’. – Mu fez bastante questão de ser frio o suficiente para amedrontar o amigo. – Desculpe... Não sabia que estavam aqui por minha causa. – Aioros riu em atitude debochada, sem disfarçar o olhar sarcástico que dirigia a Shaka. – Algum problema, Aioros? – Não percebeu ainda que o problema aqui é só você? Não estaríamos preocupados se você não tivesse tentado se vingar. Jamais estaríamos aqui se você soubesse controlar seu ciúmes. Não teríamos seis homens importantes mortos se você controlasse seus nervos. Shaka apenas franziu as sobrancelhas, mostrando-se descontente com as palavras que ouvia. – Agora você pergunta qual o problema? Eu vou te dizer qual é o problema Shaka: seu problema é que Mu sempre te mimou demais! Você nunca se virou sozinho, sempre teve alguém para te proteger enquanto você faz pose de poderoso, mas na realidade, loiro… É que você não é, e nunca foi, poderoso de verdade. Tudo que você faz é se esconder atrás daqueles que te amam e que são mais fortes que você. Infelizmente você não passa de um garotinho chorão e mimado, que a todo custo procura alguém para te proteger e quando falha, recorre a única coisa que não te traiu ainda... A espada. Assim que Aioros acabou de falar, todos os presentes se viraram para encarar o indiano, o qual ainda sustentava a expressão de contrariedade no rosto. Ninguém ousava dizer coisa alguma, até que Mu interrompeu aquele silêncio constrangedor. – Aioros... Por Zeus, quer piorar as coisas? – o tibetano tentou segurar uma das mãos do amigo, mas este a retirou da mesa, apoiando-a no colo. – Eu... Não sabia que pensava isso de mim... – Shaka murmurou quieto. – Sim... É o que todo mundo pensa, mas ninguém nunca tem coragem de dizer, afinal você é frágil demais para entender, certo? – Errado. – Aioros ergueu as sobrancelhas, esperando ser atacado, mas isso não aconteceu. – É fácil julgar os outros, mas é muito difícil entendê-los. Você não sabe e nem nunca vai saber sobre a minha vida, não porque não quer, mas porque não tem o direito de ouvir nada sobre ela. Eu nunca fui isso que você diz, posso ter medo de enfrentar meus fantasmas, mas nunca tive receio de lutar. Sinto muito por meter vocês nessa, mas eu nunca pedi ajuda de ninguém, nem mesmo a de Afrodite. Shura ergueu os olhos para o sueco, que confirmou silenciosamente com a cabeça. Mas o ar se tornara tão tenso que até Aioros se calara por instantes. – Shaka... Eu sinto muito pelo que você deve ter passado, mas isso não justifica a forma como você encara a vida. Matar alguém nem sempre é a melhor solução, mas você não aprende isso... – Aioros, por favor... Já chega. Ambos estão errados. – Aioria encarou o amante e engoliu em seco, diante do tom baixo de voz que Mu apresentava. – Você não sabe de nada para poder julgar e Shaka age errado sempre, pois não sabe tomar decisões sozinho. Aqueles homens que Ikki matou... Eram importantes para nós, mas você provavelmente não pensou direito nisso, Shaka. Agora, graças à sua exibição e ao assassinato que ocorreu nessa sala, Saga está atrás do meu pescoço. Aqueles homens trabalhavam para ele e Kanon. O terror nos olhos do indiano fez Shiryu estremecer levemente e encarar Mu com receio. O tibetano, porém, não desviou o olhar do loiro. – Kanon odeia o fato de que mantemos nosso poder por meio da violência... O método deles, como você deve conhecer muito bem, é tortura através do medo e também trocas amigáveis de favores. Você não devia tê-los matado, não importa o que tenham dito. Isso vai me custar a vida, fora o fato de Red Tiger farejar meu rastro. – Mu... Eu... Sinto muito. – Sentir muito não vai limpar minha barra, Shaka. Olhe bem para a enrascada em que nos metemos e procure parar de se fechar em seu mundo. Red Tiger vai matar você primeiro, depois Afrodite, até chegar aos gêmeos... Mas você sabe que não serão só eles que irão sofrer. Ainda há os que te rodeiam... Shiryu, Aioros, Aioria... Shura, eu e Ikki também. Ele não tem medo de matar, não ele. Mu estava certo, Red Tiger não hesitaria em matar nenhum homem que se metesse entre ele e suas vítimas, seu passado era horrível e ele tinha certa razão em querer vingança. Shaka não sabia se devia ter respondido ou não a Mu, na verdade seus pensamentos agora eram um mistério até para Ikki, que acabou tendo que deixar a cama do loiro. As coisas ficaram mais tensas e, nem mesmo Shiryu, estava calmo como sempre estivera. OoOoO Kamus acabou não contando nada sobre seu pesadelo a Milo, porém isto estava se tornando algo constante. Por semanas, o escorpiano sempre acordava no meio da noite, procurando cessar os gritos do ruivo. Em contrapartida, o aquariano se tornava mais receptivo à medida que se acostumava com a companhia de Milo em sua vida e às vezes em sua cama. As coisas andavam muito bem, não fosse pelo rosto cada vez mais abatido do francês. O loiro se preocupava, mas não tinha abertura o suficiente para chegar e perguntar o que o afligia... E isso continuou até que ambos se encontrassem em uma situação delicada. Kamus acordara novamente no meio da noite, mas dessa vez, cansado dos pesadelos, ele se entregara a um choro convulsivo e balbuciava coisas ininteligíveis. Milo, naturalmente, fora até o quarto do francês, o abraçou e esperou ser empurrado, entretanto, ao contrário do que sempre acontecia, Kamus não o empurrou, negando seus carinhos… Ele abraçou o grego com tanta força, que Milo pensou ter ficado sem ar. – Ka... Kamus... Eu preciso... Respirar. – o francês afrouxou o abraço e limpou as lágrimas, mas continuou com o rosto escondido no pescoço do outro – O que houve, Kamus? Você está bem? Milo não queria se preocupar com o ruivo, por vezes tentava pensar em outras coisas, mas aquele francês não saía de sua cabeça. Nem mesmo quando o grego ia sozinho para a cidade, ele deixava de estar em seus pensamentos. – Kamus, você pode não gostar disso, mas eu adoro de você... Como eu já te disse, eu não queria... Mas aconteceu e eu não posso negar. Então, quero que você me conte o motivo dos pesadelos e eu vou tentar te ajudar. – E se eu não precisar ser ajudado, ou não quiser? – ele perguntou limpando o rosto com as costas da mão. – Aí eu vou ficar do seu lado, só pra te fazer se sentir bem... Kamus sorriu imperceptivelmente, escondendo o rosto no pescoço de Milo ainda. Mas logo se separou do outro com o costumeiro rosto frio. – Me conta...? – Tem vários motivos... Cada dia é um pesadelo diferente... – o ruivo se ajeitou melhor na cama, cruzando as pernas – Foram vários episódios, um deles aconteceu quando eu tinha sete anos. Minha mãe tinha acabado de morrer e meu pai era pobre. Ele na verdade era um vagabundo que sempre se aproveitava do dinheiro que minha mãe conseguia trabalhando. Mas quando ela morreu, ficamos pobres e já não havia o que comer... Era inverno na Grécia e ele me levou pelas ruas escuras de Athenas, até um beco com um cheiro insuportável. – Você não é francês? – Sim... Mas depois que minha mãe falecera nós viemos até a Grécia, mas ainda não cheguei a essa parte. – Milo calou-se e sentou-se de pernas cruzadas em frente ao ruivo – Como eu dizia... Meu pai tinha me levado a um beco em Athenas, onde havia uma porta que dava para o subsolo de um prédio enorme. Lá dentro havia inicialmente só um homem, que naquela época era um rapaz de uns quinze ou dezesseis anos. Ele era bonito, eu lembro que usava um terno preto, os cabelos escuros presos e seus olhos eram frios e seguros... Eu não tinha medo dele, tinha respeito. – Quem era ele? – Saga. Depois veio Kanon com uma maleta cheia de dinheiro... Quinze milhões de dólares. – Nossa... Pra que tanto dinheiro? – Era o meu preço. Meu pai levou os quinze milhões, Saga e Kanon ficaram comigo. Eu supostamente deveria ser herdeiro da fortuna dos dois irmãos. – Seu pai... Te vendeu? – É. Foi meu primeiro trauma... Meu próprio pai me vendeu por dinheiro... Ele recebera a oferta quando ainda estávamos na França. Os gêmeos, Saga e Kanon, mandaram que nos buscassem e então viemos para a Grécia, onde eu aprendi a falar grego e a lutar. Depois de anos treinando Kanon achou que eu estava pronto para reencontrar meu pai... E então eu o matei. – Você... Matou seu pai? – É... Ele já estava nas últimas também. – Milo não aprovava aquela atitude, mas achou melhor não comentar seu ponto de vista, afinal Kamus não gostava de ser contrariado. – E quais os outros traumas? – Um por vez... Era justo que o tão desconfiado Kamus não contasse tudo assim de uma vez. Já fora demais ele contar algo tão íntimo a Milo. Então, o grego esperaria o tempo que fosse necessário para tomar uma atitude mais íntima. O tempo era o melhor remédio e, à medida que as semanas passavam, o francês se tornava mais receptivo e menos fechado, de modo que Milo se permitia algumas brincadeiras durantes os treinamentos. E por falar em treinamento, Milo era um ótimo aluno, aprendia rápido e parecia pegar fácil a maioria dos golpes e bases. Kamus achava até que poderia ensinar a arte da espada ao tão aplicado discípulo. Pode-se dizer que a espada também foi um sucesso, porém Milo imobilizava muito mal o adversário e, sabendo como isso era importante, o ruivo resolveu dar algumas aulas de imobilização. – É tão simples quanto tirar doce de criança... – Você tira doce de criança, Kamus? – Claro que não! É só uma maneira de dizer... – nem mesmo as piadinhas sem graça de Milo deixavam o francês zangado. Kamus estava melhorando muito o seu humor nas últimas semanas. – Eu sabia! – Ta... Que seja, vamos logo. O grego riu, era engraçado ver o outro ficar tão vermelho quanto o cabelo. E Kamus era tão gracioso em seus movimentos, que parecia uma pluma... Ou quem sabe um gato? – Então... Se eu te pegasse assim, como você se livraria? – ambos estavam emaranhados no chão do andar de baixo da Casa de Aquário. Pernas para um lado, braços para o outro e Milo se viu abraçado ao francês, imobilizado, mas ainda assim colado naquele corpo forte. Sendo assim, o grego não queria se livrar. Ele queria outra coisa, mas ainda tinha dúvidas sobre a opinião do outro. – Milo? Você está vivo ainda? Se demorar tanto assim... – as palavras frias foram interrompidas por aquele olhar azul translúcido e... Cheio de lágrimas? Kamus arregalou os olhos e soltou o outro – Te machuquei? Você está bem? O escorpiano apenas concordou com a cabeça e levantou-se cabisbaixo, o ruivo ainda pensou em ir atrás dele quando este subiu as escadas... Mas era melhor lhe dar um tempo. OoOoO – Conseguiu encontrá-los? – Sim... Mas foi difícil me aproximar. – E por quê? – Porque ele fareja longe... Não posso dar tanto mole assim... – Está bem... Mas não demore... E mate ambos. – Sim senhor.
Continua... Notas da Autora: Hum... A história do Kamus virá aos poucos, assim como a de Shaka, Mu e de quem mais vocês quiserem saber. Espero não decepcionar ninguém... ‘O.o Bjus! |
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